ESG – a bússola

Em 2004, o então Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, convidou mais de 50 CEOs de instituições financeiras a apoiarem o Pacto Global da ONU e se comprometerem a integrar aspectos sociais, ambientais e de governança ao mercado de capitais. Com essa provocação, uma publicação do Pacto Global, intitulada “Who Cares Wins” e realizada em parceria com o Banco Mundial, trouxe pela primeira vez o termo ESG.

ESG é uma sigla em inglês para “Environmental, Social and Governance” (em português: Ambiental, Social e Governança) e representa um conjunto de práticas que norteiam a atuação de uma empresa e seus impactos, e tais práticas são utilizadas como critérios para as tomadas de decisão de investidores.

Critérios ESG fornecem aos investidores informações importantes que servem como parâmetro na hora de decidirem onde alocar seus recursos, observando companhias que buscam um retorno para além do financeiro, como também de impacto positivo na sociedade e meio ambiente.

Ondem entram os ODS na Agenda

Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) fazem parte de uma agenda global a ser cumprida até o ano de 2030 – a Agenda 2030. Tal agenda integra um compromisso firmado em 2015 pelos 193 países-membros da Organização das Nações Unidas (ONU), em busca de um mundo melhor, mais próspero, justo e sustentável. Essa agenda global indica 17 objetivos, que se desdobram em 169 metas que visam erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir que todas as pessoas tenham paz e prosperidade. Os ODS são integrados e indissociáveis, equilibrando todas as dimensões do desenvolvimento sustentável. Todos os objetivos têm igual importância, e a agenda só terá sucesso se forem alcançados em sua plenitude. Para isso é essencial o envolvimento e a participação de todos os setores da sociedade (iniciativa privada, governo e sociedade civil).

O papel das empresas

Sendo assim, as empresas e organizações empresariais desempenham um papel fundamental para o alcance das metas, uma vez que possuem grande potencial de transformação da sociedade e poder de influenciar comportamentos. Através de seus negócios, podem desenvolver soluções e tecnologias para fomentar o desenvolvimento sustentável nos seus territórios e solucionar os desafios para o alcance das metas em nível mundial, além de possuírem recursos que podem ser utilizados para financiar pesquisas e projetos direcionados para o tema.

ODS e ESG: uma sopa de letrinhas saudável para todos

Os 17 ODS trazem os principais desafios e vulnerabilidades da sociedade e do planeta como um todo, para que alcancemos um desenvolvimento que seja de fato sustentável. E, atrelado a essas vulnerabilidades, sinalizam também as principais oportunidades de desenvolvimento.

Uma iniciativa como a Agenda 2030 torna a sustentabilidade uma ordem global e transversal, consolidando-a como uma obrigação de todos os setores, e não apenas de uma parcela da sociedade. Segundo a Rede Brasil do Pacto Global, 83% das companhias listadas no Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 já integram os ODS à sua estratégia empresarial, desdobrando em metas e resultados os ODS representam justamente os desafios que a sociedade, em nível global, vem enfrentando e que, se não forem mitigados, só tendem a crescer.

Com os recursos naturais sendo consumidos e devastados como se fossem infinitos, uma sociedade cada vez mais desigual e uma crise econômica e sanitária mundial sem precedentes, as empresas também sofrem impacto na geração de capital. Quando uma empresa se compromete publicamente com a Agenda 2030, alinha sua estratégia às metas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e relata seu progresso. Além disso, demonstra para o mercado que tem conhecimento dos seus impactos, gerencia seus riscos e cria vantagem competitiva em relação à estratégia.

O pilar meio ambiente

O aspecto ambiental, ou o E do ESG, avalia a atuação das empresas em relação à gestão e mitigação dos seus impactos ambientais, respeitando a capacidade da natureza de se regenerar. Para isso, as empresas precisam estar atentas aos seus processos produtivos, tornando-os mais limpos e sustentáveis.

Convergindo com esse aspecto, o ODS 12 – CONSUMO E PRODUÇÃO RESPONSÁVEIS traz metas justamente para assegurar padrões de produção e consumo, para que se estabeleçam de maneira limpa e sustentável. A empresa que se compromete com esse ODS, se compromete a gerar menos resíduos por meio de práticas de redução e reciclagem, utilizar os recursos naturais de modo eficiente e fazer um manejo correto dos seus resíduos/produtos químicos, além de promover práticas de consumo e estilo de vida mais sustentáveis.

Nesse sentido, há também o ODS 9 – INDÚSTRIA, INOVAÇÃO E INFRAESTRUTURA, que entre suas metas, busca promover uma industrialização inclusiva, sustentável e inovadora, por meio de adoção de tecnologias e processos industriais mais limpos e ambientalmente conscientes.

Esforços para ampliar as estruturas e tecnologias para o fornecimento de energia renovável a todos os países também é de extrema importância para garantir o alcance do desenvolvimento sustentável. O setor industrial é um importante elemento para conquistar esse objetivo. Ao alinhar a sua estratégia ao ODS 7 – ENERGIA ACESSÍVEL E LIMPA, as indústrias podem contribuir por meio da redução do consumo de energia nos seus processos produtivos e investimento em iniciativas de energia renovável, por exemplo.

Em relação à gestão dos recursos hídricos, as empresas podem contar com dois ODS para amparar suas estratégias. O ODS 6 – ÁGUA LIMPA E SANEAMENTO BÁSICO possui metas que buscam a utilização eficiente da água e acesso a saneamento básico para todos. Para contribuir com o alcance desse objetivo, as empresas devem compreender o impacto do uso da água na sua operação e em toda a sua cadeia de valor, além de realizar o tratamento adequado, mitigando a liberação de produtos químicos e outros resíduos, aumentar e promover a reutilização da água, implementar tecnologias ou processos para poupar água e realizar campanhas de conscientização.

O saneamento básico ainda engloba aspectos de drenagem pluvial e coleta de resíduos, ponto fundamental para o bem-estar da sociedade e saúde dos cidadãos.

O ODS 14 – VIDA DEBAIXO D’ÁGUA está ligado à preservação dos oceanos, mares e recursos marinhos. Ao realizar uma gestão de resíduos gerados pelo seu processo produtivo ou produtos e serviços, gerir as fontes de poluição da sua operação e monitorar sua cadeia para que não haja descarte nos oceanos, as empresas já contribuirão para o alcance desse objetivo.

O ODS 15 – VIDA SOBRE A TERRA tem como objetivo proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres. A empresa que alinha sua estratégia empresarial a esse ODS precisa tomar medidas para reduzir a degradação florestal, desflorestamentos, emissão de poluentes e descarte de resíduos. Deve ainda estar atenta a práticas de manejo florestal sustentáveis não somente na sua operação, mas em toda a sua cadeia, promovendo o uso de certificações de gestão florestal e de produtos de origem florestal também certificados, comprovando assim que são oriundos de florestas legalizadas. As empresas têm importante papel também para evitar a mudança climática e seus impactos.

Para isso, podem utilizar o ODS 13 – COMBATE ÀS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS como um direcionador das suas estratégias, fazendo um inventário de emissão dos gases de efeito estufa (GEE) e trançando metas para a redução. Além disso, engajar-se com o tema, utilizando de sua influência para propor soluções, metas e políticas, tanto com órgãos públicos quanto com outros atores da sua cadeia de valor, é fundamental. A compensação de carbono também é uma importante ferramenta, que pode ser utilizada como aliada ao inventário de GEE, trazendo à luz a quantidade de CO2 ou outros gases poluentes que são emitidos pelo processo e realizando ações para reduzir essa emissão e compensar aquela que é indispensável. A plantação de mudas e a aquisição e proteção de áreas verdes são estratégias contribuintes para esse fim.

ASPECTO SOCIAL

O S do ESG é o critério que avalia as práticas da empresa em relação à sociedade, bem como o cuidado na relação com seus stakeholders. Ser uma empresa socialmente responsável implica construir políticas e uma gestão que levam em consideração os direitos humanos, boas práticas trabalhistas, saúde e segurança, qualidade de vida, desenvolvimento comunitário, geração de emprego e renda, diversidade e inclusão. E, para nortear a atuação da empresa em busca de boas práticas no critério S, também há uma série de ODS que pode corroborar.

Para um crescimento econômico inclusivo e sustentável, no qual todas as pessoas tenham acesso ao emprego pleno e trabalho decente, o ODS 8 – EMPREGO DIGNO E CRESCIMENTO ECONÔMICO traz metas que vão muito ao encontro da atuação empresarial no âmbito da responsabilidade social. Ao se comprometer com esse ODS, as empresas se comprometem a erradicar qualquer prática de trabalho forçado, infantil ou análogo à escravidão, proteger todos os direitos trabalhistas, ofertar um ambiente de trabalho digno e com oferta de remuneração justa e por fim, respaldar sua atuação nos direitos humanos, assim como a atuação de todos os elos da sua cadeia de fornecedores.

O ODS 11 – CIDADES E COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS apresenta metas para que as cidades e comunidades sejam mais inclusivas, seguras e sustentáveis, garantindo o acesso de todas as pessoas a uma infraestrutura digna de moradia, transporte e serviços básicos. Investir na gestão sustentável do seu negócio e atuar de forma colaborativa com governos locais, por meio de compartilhamento de tecnologias, infraestrutura, recursos e serviços econômicos, já é uma maneira de contribuir com o alcance do objetivo.

Quando falamos de práticas de diversidade, inclusão e redução de desigualdades, há dois ODS que podem orientar as empresas: 5 e 10. O ODS 10 – REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES possui metas para reduzir as desigualdades, promover a inclusão social, economia e política de todos, eliminar práticas e políticas discriminatórias e garantir a igualdade no acesso a oportunidades, independentemente de idade, gênero, deficiência, raça, etnia, religião ou condição econômica. O ODS 5 – IGUALDADE DE GÊNERO apresenta metas para alcançar a igualdade de gênero e empoderar meninas e mulheres. Para isso as empresas podem assegurar a equiparação salarial entre mulheres e homens que exercem a mesma função, traçar metas para aumentar a proporção de mulheres em cargos de liderança, estabelecer políticas de tolerância zero a todas as formas de violência no ambiente de trabalho (inclusive práticas de assédio moral, sexual ou psicológico), incentivar a liderança feminina, capacitar e empoderar as meninas e mulheres para que ocupem lugares que são ocupados majoritariamente por homens, de forma a não reforçar estereótipos nocivos de gênero.

O ODS 4 – EDUCAÇÃO DE QUALIDADE apresenta metas para promover uma educação equitativa, inclusiva e para todos. A empresa, para contribuir com esse objetivo, pode atuar de várias formas: oferecer oportunidades e incentivos para qualificação profissional de seus funcionários, implementar iniciativas de capacitação profissional ou até mesmo de educação básica para a comunidade e estabelecer parceria com instituições de ensino, complementando ações do poder público. O ODS 3 – BOA SAÚDE E BEM-ESTAR traz metas que buscam promover o acesso à saúde e bem-estar para todos. As empresas podem então contribuir com a oferta de condições dignas de trabalho, garantindo um ambiente seguro, saudável e com todos os cuidados necessários para não expor funcionários a riscos de contração de doenças contagiosas. Podem ainda oferecer planos de saúde e odontológico, convênios com clínicas e/ou farmácias, fornecimento de alimentação saudável, estímulo a práticas de atividades físicas e também apoiar sistemas de saúde, de modo a complementar as ações do setor público. Em relação à erradicação da fome e da pobreza no mundo, as empresas podem contribuir e traçar estratégias para tal.

Ao se comprometerem com o ODS 1 – ERRADICAÇÃO DA POBREZA, podem realizar investimento social em projetos e organizações da sociedade civil que trabalham com desenvolvimento e assistência social, fornecer salário justo aos seus funcionários (com benefícios e condições de trabalho adequadas) e priorizar a contratação de pequenas/médias empresas para sua cadeia de fornecimento (pagando preços justos e incentivando o desenvolvimento delas).

E quanto ao ODS 2 – FOME ZERO E AGRICULTURA SUSTENTÁVEL, as empresas podem contribuir respeitando os direitos humanos em toda a sua cadeia, criando oportunidades de trabalho dignas, apoiando projetos nas comunidades, ajudando comunidades rurais, promovendo o consumo de alimentos saudáveis e sustentáveis e apoiando comunidades subdesenvolvidas.

ASPECTO GOVERNANÇA

O G de Governança, último mas não menos importante aspecto do ESG, está ligado a um conjunto de processos, leis e normas que orientam e monitoram as práticas de uma empresa, bem como a qualidade da sua gestão, prezando sempre pela transparência e integridade.

O ODS 16 – PAZ, JUSTIÇA E INSTITUIÇÕES EFICAZES é um importante norteador para as empresas que desejam estabelecer boas práticas no critério G. Prezar por uma estrutura de governança transparente, baseada em valores e uma cultura ética, implementar práticas anticorrupção e suborno, promover uma cultura da integridade para todos seus stakeholders e criar canais de denúncia para irregularidades são importantes passos para as empresas que desejam contribuir com o alcance das metas.

O ODS 17 – PARCERIAS E MEIOS DE IMPLEMENTAÇÃO também pode balizar algumas práticas de governança em prol do desenvolvimento sustentável, principalmente por meio de uma atuação responsável nos países em que a empresa está localizada, com o devido pagamento de impostos em tempo hábil, transparência nas práticas fiscais, parcerias com governos para desenvolvimento de políticas e programas de promoção de emprego. O seu último objetivo, o ODS 17, fala justamente das parcerias e meios de implementação das metas. Somente com a mobilização de todos os setores e sociedade, com cooperação e criação de parcerias, será possível o cumprimento da agenda.

 

Conteúdo extraído e adaptado para o Blog Lonax a partir do GUIA SESI/FIEMG AGENDA 2030 PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL sob autorização.

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